Destaques

O juiz

João Humberto Martorelli

Alguns acontecimentos recentes me estarrecem e preocupam: o juiz Sérgio Moro vendo-se obrigado a expedir nota oficial desmentindo a intromissão de um ex-sócio da sua mulher nas negociações com um delator; juízes trabalhistas proclamando ideologias e anunciando em público que irão decidir contra a lei da reforma trabalhista; Gilmar Mendes decidindo como lhe apraz, exatamente assim, como lhe apraz, ainda quando contrário ao mais elementar princípio de impedimento e suspeição da lei processual.

Acontecimentos impensáveis no seio do Judiciário e do Ministério Público há algum tempo. Tenho, por ambos, profundo respeito, o que impõe certo distanciamento reverencial, mesmo aqueles magistrados, promotores e procuradores com quem mais convivi por força do ofício nunca tiveram acesso à minha vida pessoal ou vice-versa; saudavelmente, na comunidade jurídica, nomeadamente na forense, essa relação pode ser reconhecida como respeitosa proximidade.

Aprendi essa convivência no dia a dia – e aqui vou ficar no passado, no início da minha carreira, para não ser injusto com os magistrados atuais – despachando e fazendo audiências com juízes do quilate de Hélio Machado da Silva Porto, Mauro Jordão de Vasconcelos, Francisco de Sá Sampaio, Aluísio Xavier, Carlos Alberto Marinho, José Napoleão Tavares de Oliveira, Edgar Sobreira, Carlos Xavier Paes Barreto, entre tantos outros que honraram e honram a magistratura pernambucana e nacional.

Nenhum desses, ou um juiz federal como José Fernando Jardim de Camargo, se exporia ao público, aos advogados, à sociedade, como o fazem hoje os juízes e procuradores federais, e até os ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao contrário, eram homens avessos à coluna social, ao convívio íntimo com advogados e empresários, mantinham-se à distância correta e necessária para preservar a isenção E certamente não teriam, nem suas mulheres, Facebook.

A justiça que se fazia mansa e quietamente, mas com firmeza e dignidade, da porta para dentro da sala de audiências, infelizmente, hoje é disputada nas páginas dos jornais e nas redes sociais, evidenciando-se um rompimento dos integrantes da carreira de Estado com o recato que deles se exige. A escala de valores foi subvertida, e assistimos hoje à justiça refém da mídia e da opinião pública, por obra de alguns magistrados e promotores. Judiciário e Ministério Público precisam parar, e refletir, pois a sociedade vai cobrar uma hora dessas.