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Destaques

A passagem

Alvíssaras! Ora, alvíssaras!

Não vês que longe se foram os momentos a celebrar nesta lua do tempo? A passagem não é mais contada em horas, em dias, semanas, mas em aflição, angústia, perdas,dor,desespero,aalegria arremessada por ondas frias às calendas.

E, das calendas que vivi em 2020 e de todas as demais horas, resta-me o tempo de sossego com os livros que pude ler, e foram tantos, aliviaram meu triste coração.

Divido alguns poucos com o leitor, porque pouco é meu espaço.

A biografia de Federico Garcia Lorca por Ian Gibson levou-me à personalidade impetuosa, extravagante, apaixonada, ímpar, genial, conflituosa, por vezes depressiva, do poeta, pintor, dramaturgo, ator, diretor, compositor e músico, pianista, um artista completo! Conviva de Pablo Neruda e Salvador Dalí, contemporâneo de Picasso, ultraísta, surrealista, cigano.

É curioso que, na biografia de Garcia Lorca, contemporâneo da gripe espanhola, uma pandemia arrasadora, não se lhe faça uma mençãosequer,oartistasufocando a peste. Talvez a ela se refira o repto que faz a Deus, apesar do fervor religioso adquirido desde a infância, ao proclamar: "não existe o Deus de Amor que nos pintam; contemplando os céus, adivinha-se a impossibilidade de Deus. Deus, o eterno mudo, Deus insensível, rude. O abismo.O Deusque Cristodissehabitar nos céus é injusto. Troveja sobreosbons, trovejasobresosmaus, inclemente".

Maravilhosa também a biografia de Leonardo da Vinci por Walter Isaacson. Apaixonado e obsessivo, também melancólico e depressivo, deve vir com a genialidade, exuberante ao conectar arte e ciência, fico pensando se nosso principal mandatário o definiria como aquele homem lá que fez a mulher pendurada no Louvre.

Mas não, não deixo que me atormente a realidade, voltemos às nuvens, minha alma, e então penso que Leonardo e Federico são espíritos iguais em tempos diferentes, amantes vorazes, artistas incomparáveis, interessados em tudo, no homem e na natureza, da sua observação resultando as obras que alteraram o rumo do universo, na exata acepção exegética da palavra.

Li também muita Clarice, em reverência, os Contos Completos de Tosltoi, e deleito-me com a tardia decisão de ler Em Busca do Tempo Perdido pela segunda vez. Não é o que faço, buscar o tempo perdido, o tempo me procura, e me acha em meio a tempestades e em tardes quentes, sempre à procura de meu amor, meu simultaneamente lírico e concreto amor. Não, o ano-novo não virá na passagem de 31 para 1º, o ano-bom somente com a vacina.

Desejo ao leitor dias melhores, livros, recordações da infância, encontros, amor, doces, saúde, muita saúde, e poesia: verde que te quero verde, verde vento, verdes ramos, o barco sobre o mar, e o cavalo na montanha.

 João Humberto Martorelli, advogado